segunda-feira, 18 de abril de 2011

Protège Moi - Parte 1

Concreto, goma de mascar fresca, couro, papel cinza-encardido. Sobe pela visão periférica uma nuvem peçonhenta de fumaça azul brilhante. “Mamães de todo país! Nós temos a solução”, dizia a manchete de maior destaque. O papel tremeu conforme a oscilação do corpo dela: um risinho irônico despachado após uma cotovelada da garota ao lado.

Dobrou o papel ao meio umas duas vezes. Deixou-o no chão sujo, prestes a levantar vôo. Os jornais impressos eram feitos porcamente, com tecnologia que rende estudo a museólogo. A tinta preta das letras deixava rastros nos dedos, nas mãos – invariavelmente no corpo. No caso, aquela era a matéria principal, anunciada com a foto monocromática de uma garotinha que deixava para trás o cigarro dos pais para experimentar o Smokids!. As publicações mais baratas, ditas “independentes”, misturavam a publicidade com o redacional, por conta da dependência no orçamento.

“A partir de hoje, papais e mamães de todo o mundo podem comprar, pela metade do preço, em qualquer supermercado, o Smokids! – cigarro eletrônico feito para crianças. Não possui nicotina, mas emula todas as sensações a partir da Kiddo, substância não-tóxica que estimula os receptores nicotínicos de acetilcolina. “Uma maravilha!”, afirma Eileen, mãe de gêmeas siamesas.”

Entre os lábios pintados de roxo escuro, descansava um precursor desse tal Smokids!, só que feito por um pesquisador underground. Provavelmente Jack Hyun Jun vendeu sua fórmula de substituto de nicotina para a Jones-Yamato. E ao pensar sobre tudo isso, recolhida em seu silêncio de olhos murchados pelas frestas de sol entre prédios, uma mão pequena cheia de unhas azuis apoiou-se sobre seus joelhos descobertos pelas calças jeans rasgadas.

_Vou nessa, Joe.


_Hm? Para onde? – os olhos díspares de Johanna, apelidada de Joe, ergueram-se despidos das pálpebras pesadas. Um verde, outro mel.

_Pra escola, né. Mais uma falta e já era... – o dedo gordinho e infantil de Heloise brincou de faca passando pela própria jugular.

Joe assentiu com a cabeça, não respondendo àquele subjetivo convite senão com o olhar voltado para a direção oposta que a amiga tomaria.

_Vai lá. – a súbita e tardia voz de Joe invadiu o ouvido de Heloise junto de um tremor de surpresa. Detestava a imprevisibilidade da outra.

É que os degraus da catedral de Santa Yana estavam confortáveis após recentemente terem sido aquecidos por seus quadris ossudos. O verniz do coturno, apoiado níveis abaixo, reproduzia um brilho de estrela pontiagudo. Heloise não tinha percebido que dentro de cinco meses, aquele era o primeiro dia em que a cidade se iluminava em tons sépia, abandonando o cinza-azulado.

E, por isso, queria aproveitar para assistir ao movimento lento das partículas de poeira navegando por entre os arranha-céus ou mesmo o mendigo que passava correndo pela via dos Autos, levando em suas costas um carrinho de madeira preenchido de monitores de tubo, teclados de computador, caixas de som, latas de tinta... Um cachorro, amarrado à geringonça por uma corda presa na coleira, resfolegava com a língua roxa dependurada entre os dentes. Seus pelos tingidos de verde remexiam-se pesados de sujeira. Joe não entendeu o que sentia.

*
De volta para casa, já quando a cidade brilhava em tons deformados pelos neons, sentava-se numa poltrona com a visão voltada para si. Engolia fria a sopa pastosa e amarga, feita pela mãe há uns dias. Eram cinco pras dez da noite, como confirmavam os números do relógio de chão projetados no teto. Logo ela chegaria, com suas três bolsas: uma cheia de roupas, outra com o notebook, outra com remédios. Tendo levantado o queixo para conferir a medição do tempo, acostumou-se com a nuca sobre o encosto borrachudo da poltrona. E assim ficou – a boca entreaberta, ressecada pelo ar condicionado. O tapete felpudo acariciava-lhe os dedos dos pés machucados pelas botas.

E permaneceu assim, entorpecida pela pulsação dos dois pontos que separavam os números das horas e dos minutos. A cortina oscilava, as sombras mudavam de lugar e a aflição com o atraso da mãe não chegou a lhe arrepiar a penugem áurea que crescia em seus braços. A buzina dos carros, o escândalo dos freios, os gritos da noite, as pulsações da discoteca ao lado. Quanto mais alto o prédio, mais o vento traz as fragrâncias da cidade.

Foi dormir sem limpar a comida que derramara no chão e a caneca de louça que quebrara no caminho para a cama. A jaqueta de couro foi deixada sobre a cabeça do enorme urso polar de pelúcia. As botas foram deixadas na sala. As calças foram esquecidas próximas ao pé da cama. E, com um suspiro, ela se encolheu dentro da regata branca, debaixo dos lençóis violeta. Temeu olhar as sombras dos móveis e dos objetos formando-se em contraponto à luminescência amarelada que vinha do prédio vizinho.

Mas foi quase pegando no sono, no limite entre a noção exterior e o mergulho numa narrativa etérea, que uma explosão de som agudo a fez remexer as pernas, escalando a cama, de costas para o colchão. Crescia debaixo da cortina arrancada uma silhueta enorme e monstruosa, numa velocidade harmônica e tranquila tal qual a de um inseto distraído. Aumentava, evoluía, explodia em câmera lenta conforme a mão de Joe escorregava para a gaveta do criado mudo, onde escondia um canivete. A forma tomou ânimo, bem como a garota tornou-se desespero ao perceber que o nervosismo trancava o móvel.

Inconsolável, a criatura se debatia, revelando no lusco-fusco contornos humanos esguios e frágeis. E ao que se expandia o vulto anexado às costas curvadas, o tecido das cortinas descia, voluptuoso, pela moldura de um par de asas escamosas, coberta por penas brancas e rígidas. Subia ao teto, enroscava-se por entre os penduricalhos, ocultava o amarelo luminoso expelido pelos adesivos de estrelas elétricas. Parecia não terminar nunca de se abrir.

Joe desceu da cama, trazendo no movimento a base do abajur desconectado da tomada. Empunhava-o como um taco de baseball, aproximava-se da criatura com passos ferinos, num silêncio corrompido apenas pela ofegante respiração do outro. E quanto mais próxima do inefável, a garota descobria, com os feixes de luz de carros que invadiam o quarto, que o carpete lívido preenchia-se em cor negra, que da parte alta da figura desciam cabelos perolados, finos e compridos.

Antes de formular uma pergunta, Joe foi interrompida por uma tosse muito alta e umedecida por aquilo que a entidade regurgitava continuamente pelo chão de seu quarto. Enojada, mas ainda em posição de ataque, ela já estava a menos de dois metros de distância do sujeito. Assim tão junto, cresciam os olhos de encontro com a abóbada achatada do cômodo, a qual punha limite àquelas eriçadas... “Asas”, sussurrou pouco antes de ter seus tímpanos perturbados por um grito composto por três mil vozes diferentes em timbre, entonação e volume. Suas pernas fraquejaram, bem como os olhos preencheram-se de lágrima em contraste à língua ressecada. Por aquele instante sem tempo, ela encarou a face de um humano de órbitas irritadas e muito brilhantes. Seus lábios finos e compridos tremiam e borbulhavam em líquido negro.
Indefinido, o corpo coberto de farrapos se jogou contra o próprio vomito. Arrastou-se pelo carpete sem conseguir mexer os joelhos. Respirava com a boca, falava entre os dentes. Aquelas mesmas vozes em coro sussurravam, invadiam o quarto por quaisquer direções senão a do rosto indescritível. Os pés que avançavam, agora regrediam junto das mãos que se desfizeram de acessório. Procurava parede, procurava apoio, procurava abrigo. E o grito, que não se conteve no peito apertado, renasceu ainda mais agudo e enlouquecido por segundos expurgados por mãos de dedos muito grandes e finos. O corpo magro caiu pesado sobre o equilíbrio de Joe. A nuca atingida pela rigidez da queda a fez perder a consciência pelo tempo de uma piscada profunda.

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Esse conto seria pra coletânea Meu Amor é um Anjo, da Editora Draco, mas como tem muita violência, acabei fazendo outro (o livro é composto por contos românticos para adolescentes). Então... se houver interesse por parte dos leitores, publicarei o resto - que já está pronto - senão, guardo.

12 comentários:

  1. Bem, moça, continue. Parou no mais interessante, portanto, continue. Gosto dessa narartiva fluída, que dá margem a pensamentos, ao desenrolar das cenas quase que com a naturalidade de um filme.

    Se outros não quiserem ler, me mandaria via email?

    Realmente prendeu minha atenção, aguardo a continuação.

    Beijos ;*

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  2. Que bom que gostou! Vou aguardar mais gente se manifestando :)

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  3. AHEUEAHU Nossa, não imaginava que você fosse ler aqui (e gostar), Diego

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  4. me chamou de minininha, mas beleza. ahsuahshasu
    curti sim. dá pra trabalhar bastante a imaginação lendo seus contos. já até andei desenhando algumas 'cenas' pra tentar imaginar os momentos e situações. esse tal 'monstro' aí tá quase saindo. para de drama e posta aí a 2ª parte, pô.

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  5. Não foi isso que eu quis dizer HUAHAUHAUHA Mas você não é o amigo do Matheus e do Bruno, que joga com eles? Não imaginei que fosse chegar aqui, um dia, só isso XD

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  6. isso aí, sou eu mesmo. amigo do matías e do motoca. prazer! e agora um leitor assíduo do seu blog aqui favoritado.

    quanto ao conto, gostaria que fosse um livro. já tem algum aí pra eu comprar?

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  7. por enquanto, só tenho um conto publicado em livro (Imaginários vl. 3 da Draco), daí vai sair mais um, em junho, na Meu Amor é um Anjo, da mesma editora \o\

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  8. Mais gente se manifestando ! Manda bala Lídia.. :)

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  9. posta o resto lidia PQP sua coisa, vou sequestar o seu gato se vc não posta-lo VIU

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  10. Olá, Lídia. Bem legal o conto. Gostei do jeito que ele abre a narrativa, e o "final" é inquietante.

    Sai o resto? o/

    Eu mesmo estou pensando em escrever um conto pra uma das antologias da Draco . Vamos ver se presta...

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  11. Deixa de fazer doce, Dona Lídia, quero ver se smokids dá barato ;-)

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