quarta-feira, 20 de abril de 2011

Protège Moi - Parte 2

O quarto tornou-se anil e tortuoso. A vista embaçada pela vertigem distorcia, sinestésica, o semblante de uma pessoa caída. Joe se levantou o mais rápido que pôde, tentando ignorar a dor que latejava no alto de seu pescoço. Tomou em mãos a mesma base de abajur, tentando não rasgar a pele com os cacos da lâmpada quebrada. Os passos dela remoíam; a respiração do inominável fluía. Achava que o monstro estava desacordado, portanto, tinha ânimo para se aproximar já empunhada a arma de improviso. Um pé pós outro, uma fina linha de suor derretendo a sensação fria que a brisa vinda pela janela deixou. Os pulmões se encheram, em furor, antes de ela disparar impulso e força na direção da cabeça do invasor.

A face voltada para cima se rebaixou conforme o negrume voltou a expelir, com violência. A criatura e seus tantos eus gemiam, uma das mãos agarrando o nada exposto sobre o chão de carpete acinzentado. Mas não reagiu. Continuou lamentando sua agonizante situação conforme choros de bebês invadiam o vocal da cantoria lacrimosa. Assustada e arrependida, Joe largou a arma manchada no chão, levando à boca as mãos que vertiam em culpa. A criatura era tão pálida que, mesmo na penumbra, parecia cintilar.

Desviou-se do moribundo e foi até a porta, onde resolveu ligar o interruptor antes de fugir para a sala, para a rua, para qualquer outro lugar menos ali. A luz se acendeu branca demais para as vistas da vítima. A pálpebra inchada pelo golpe facilitou a proteção contra a luminosidade que o lugar tomou. Mas foi só assim que Joe pôde enxergar que, em seu chão, resfolegava um humanóide de pouca estatura, com aspecto que beirava entre o feminino e o masculino, mas que devido à ausência de curvas, o veredicto foi de que era um garoto... mas que tinha asas.

As penas espalhadas pelo chão grudavam ao líquido negro e pastoso que há pouco ele vomitava, mas que agora expelia pelas feridas, pelo ouvido. A hemorragia complementava a fratura em ambas as pernas, imóveis e entortadas. Os dedos compridos que ora calaram o grito de Joe, ainda tentavam agarrar o invisível sobre o tapete. Parecia que agora ele dizia algo em sua língua, num conjunto de vozes mais unificado e organizado. Crescia em seu peito uma apnéia lúcida, a falta de perdão que se deve a quem maculou o rosto de porcelana que agora se desfigura em profunda tristeza.

Não quis se perguntar, não quis se aproximar. Deixou-o em sua desgraça enquanto ela, na sala, variava entre o espelho, o relógio, a janela, as mãos. A porta. A mãe que não chegava e os fatos que não se encaixavam em sua moldura do que é real. Sentou-se sobre a mesma poltrona na sala. Não conseguiu piscar os olhos ou engolir saliva até que o céu fosse do negro ao cinza claro.

*

Tendo o dia amanhecido e a solidão ainda a bruxulear a casa, Joe resolveu pegar das calças do dia anterior o cigarro eletrônico. Foi até a janela da cozinha, construída sobre o balcão da pia. Precisou se sentar sobre o móvel para conseguir dispersar a fumaça colorida para fora do cômodo. Ao lado do quadril, deixou o celular que piscava notificando pouca bateria. Enquanto tragava e trazia para dentro de si o vapor tranqüilo, conseguia pensar apenas no vazio vestido em nuvens que o céu se mostrava. Então o celular vibrou.

“To indo aí”

>A SMS de Heloise, provavelmente atrasada, mal serviu para adiantar a campainha – o porteiro já a conhecia bem e, por isso, liberava sua entrada sem recorrer ao interfone. Joe desceu da bancada, passando pela porta do quarto, não querendo assistir à assombrosa silhueta alada que se estremecia em dor. O apartamento foi aberto para Heloise, que já acendia, no corredor, seu cigarro eletrônico de fumaça verde.

_Surpresa! – ela levantou os braços cobertos por uma jaqueta jeans preenchidas por patches de bandas e logos vintage da época da II Guerra Mundial. Em suas mãos de unhas igualmente verdes, ela trazia uma sacola de papel de pão preenchida por algo que, em sua infância adornada por desenhos animados, seria um saco de doces.

_Que isso, Hel? – Joe riu por inércia, dando passagem para a animada amiga que sequer havia retirado dos ouvidos os fones sem fio – Que é que você trouxe? Você tá louca? Minha mãe podia estar aqui.

_Mas não está e eu sei disso. Ela deixou no Twitter que ia para o retiro da igreja, numa fazenda orbital.

E Joe sentiu uma pontada no estômago ao perceber que sua amiga seguia as mensagens de sua mãe, ao contrário dela, que bloqueara suas atualizações e usava um codinome para não ser reconhecida. Suas sobrancelhas se ergueram conforme o cigarro, dependurado na boca, balançou de maneira a fazê-la perceber sua desprevenida presença. Tudo bem. O cheiro de fumaça já era uma constante no apartamento.

Por trás de suas costas, Heloise tomava caminho para o “esconderijo” das duas. E o silêncio invadiu seus ouvidos conforme o player transitava de uma música a outra, conforme sua vista assumia a figura manchada de negro estirada no chão. Joe chegou logo em seguida, puxando-a para fora do quarto, segurando-a pelos ombros, já que eles tremiam.


_Calma. Eu também não sei o que é isso, mas acho que é inofensivo. Não consegue nem levantar, as pernas estão quebradas ... – e assim, puxou-a mais para o vão da porta, fazendo com que ela enxergasse os membros inertes em contraponto às costas, que se moviam rapidamente com a respiração acelerada – E eu também acabei machucando a cara dele.

_Como assim? – Heloise, que já estava meio chapada, começou a sorrir enquanto se livrava dos fones e das mãos da amiga – O cara deve tá na maior bad. Como é que ele entrou aqui?

_Pela janela.

Heloise apertou os olhos, tentando focalizar o que era aquilo que crescia das costas do indivíduo. Tendo compreendido as asas, botou o cigarro na boca e tragou por um longo período, como se o ato trouxesse para si domínio da situação. Entrou no quarto cheia de si, aproximando-se da criatura até agachar-se, tomando quase a mesma altura dela. Com os dedos, afastou os compridos fios perolados da pegajosa negritude que dominava uma de suas faces. Ainda inchada, a lateral vertia em “sangue”. Heloise empurrou o garoto pelo ombro, até que ele ficasse parcialmente virado para cima.

_Ele fala alguma coisa? – perguntou.

_Sei lá, eu nem quero ouvir isso. – Joe, que já estava sobre a cama, assistia à cena com as mãos no rosto.

_Deve tá doendo pra caramba. – Hel suspirou – Mas você é foda, hein? Pra quê bater no moleque? – ela punha a mão na testa cor de cera de vela e sentia a úmida transpiração resfriada pela friagem da manhã. Então, segurando-o pelo maxilar, analisava sua expressão, seu olho saudável esvaziado de cor e os lábios ressecados por suspiros. A respiração começou a tomar o som múltiplo e indistinto. Hel ficava fascinada com a excentricidade daquele ser.

_Que é que você tá pensando? – Joe percebeu que nos olhos da amiga brotou um brilho assustador de uma recém-nascida idéia fixa. Hel se levantou num só impulso, rasgando o saco de papel com a mesma vontade e precisão que teve ao pegar a pílula em forma de losango e a circular. Joe sabia o que aquilo significava, só não sabia se era tudo para si ou se ela pensava em drogar o estranho.

De dentro do casaco, Hel retirou um cantil de análogo de destilado, o qual deu para a criatura beber conforme ela engolia as pílulas separadas pela garota. Joe saltou da cama, preocupada com as conseqüências daquilo, mas, de alguma forma, queria ver no que dava. Ajoelhada ao lado de Hel, elas se entreolharam, deixando um riso de imaturidade escapar pelas faces pré-adolescentes.

Enojado pelo gosto da bebida, o desconhecido sofreu até conseguir ingerir os dois comprimidos. Mas o efeito era imediato, elas podiam ver: da face desnuda de tons, nascia uma expressão de extremo conforto e satisfação, de modo que a cabeça pesava para trás, retorcendo-se enquanto as vozes eram regurgitadas em volume crescente. Joe encontrou naquela cena um misto de pavor e de excitação. A dúvida foi resolvida por Heloise, que voltou sem ter sua saída notada, trazendo nas mãos mais pílulas iguais. Ela acenou com a cabeça. Joe também. Ambas repartiram o resto do líquido no cantil e botaram para dentro um clone de estimulante de crocin e um substituto de LSD.

Enquanto à vertigem não se acostumavam, elas se mantinham deitadas no chão, remexendo-se sobre a casca negra em que se transformara o líquido expelido pelo estranho. Este, aliás, havia encolhido suas asas e se permitido deitar sobre o próprio flanco  – as penas se acostumavam com o chão adornado por roupas sujas e poeira. As duas seguravam as mãos, trançando os dedos, rindo de como o som da chuva tomava forma e invadia o quarto, luminosa.

Não só se divertiam nas alucinações do substituto como sentiam que o coração disparado bombeava sangue demais para entre suas pernas. E, já sentadas, reconheciam uma a outra e não se desejavam, mas percebiam, no corpo esguio e recoberto por farrapos brancos, uns bons minutos de distração. Assim, Hel retirou do coturno uma pequena faca que usou para se desfazer dos trapos que escondiam um corpo masculino preenchido de hematomas arroxeados. Cada foco de agressão era recompensado pelos lábios pequenos de Heloise.

Joe não se permitiu desvendar as propriedades anatômicas da criatura, então, retomada pelo arrependimento de ter parcialmente desfigurado a face tão delicada, manteve-se deitada na horizontal enquanto Hel se punha paralela à excitação estimulada pelas drogas que ela o havia feito ingerir. Acontece que os bons efeitos haviam sido consumidos pelo pesar de Joe, que começava a sentir o corpo resfriar e transpirar tal qual o rosto do estranho. E como se procurasse no tremor erótico dele um pedido de perdão, ela o tomava pelos lábios, beijando-o num pedido de desculpas e numa tentativa de reconciliação. E as duas trouxeram para si apenas uma das mãos cada, tendo Hel deixado uma palma alojada em seu quadril e Joe, em seu rosto. A manhã seguiu longa até que o entardecer fosse descoberto após um longo devaneio misturado ao cochilo.


*


A primeira visão que teve ao despertar de um sono, que mais pareceu uma pancada na nuca, foi o pé da cama adornado por uma massa amarelada recheada de pedacinhos coloridos – as jujubas que haviam comido antes de desacordar. Hel não estava mais em casa, pelo jeito, e o garoto ainda estava adormecido. Joe se levantou, pondo-se sentada, ainda que algo pegajoso e negro a puxasse de volta para o chão. Ela sentiu nojo, mas percebeu que aquela substância era ainda o que o estranho excretava pela boca. Passado o momento de irresponsabilidade, ela decidiu procurar nos armários do banheiro da mãe uma caixa de curativos.


Por quarenta minutos, pelo menos, ela esteve ocupada em afastar os restos de farrapos que ainda cobriam o corpo do rapaz para limpar a superfície manchada pelo negrume que ele expelia. A toalha invariavelmente era umedecida em água morna, deixando rastros pelo carpete mesclado em sua cor original e na sujeira. O alado voltava a resmungar, mas não se permitia nenhum movimento senão o piscar do olho saudável. Joe evitava encará-lo, ainda mais porque em seu peito havia um aperto ainda maior: daqueles que rangem em necessidade e em medo.


Já higienizada e com o peito mal enfaixado pelo resto de bandagem que sobrara de uma fantasia de halloween, a criatura finalmente honrou suas características angelicais tomando um sorriso de lábios rosados e finos. Joe, em primeiro momento, encolheu-se em sua timidez, mas depois deixou escapar olhos contentes, apertados pela compaixão. E era isso que ela pensava sentir, senão quando ouviu de seu próprio estômago um rangido de fome justificado pelo vômito já retirado do chão.


Correu à cozinha, onde pegou uns sacos de batata frita e latas de refrigerante. Não levava jeito com o fogão e não estava afim de usar o microondas, bem como aquilo lhe parecia mais suculento no momento. Então, levou para que o outro também se sentisse preenchido senão pelas pílulas que o entorpeceram. Novamente sentada frente a ele, percebeu que o cheiro expelido ao abrir da embalagem remexeu as narinas infantis do alado. Ela ofereceu, um tanto amedrontada, a batata frente à boca que se abria devagar, cheia de dentes pequenos e pontiagudos. Joe afogou seu medo com uma saliva mal engolida.


O carinho crescia conforme o debilitado ser mostrava-se passivo diante dela, alguém que certamente contava com idade inferior à dele. Então, percebendo que Joe se esqueceu de retirar os últimos pedaços de batata do saco, a criatura ergueu a mão, tentando atingir a comida, ainda que, num desleixo, tivesse tocado o rosto da garota. Os olhos de cores díspares abriram-se brilhantes, surpresos e acelerados pelo gesto que, à sua exaltação, pareceu um afago. O rapaz resmungou novamente, deixando a mão escorregar conforme suas forças esvaíam em um novo cochilo pesado em dor. Ressentida, Joe quis ficar ali no chão, abraçada a ele como se sua proximidade trouxesse conforto aos suspiros que dele transbordavam.


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Segunda e penúltima parte do conto. Vocês venceram e eu vou publicar tudo mesmo hauhaua foda-se

2 comentários:

  1. interessante, já li isso em algum lugar. será um plágio da dona lídia? ou eu sou um privilegiado?

    supimpa. parte 3 é melhor ainda.

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