Foi após seis dias que Joe se percebeu ainda deitada no chão, enquanto a criatura se punha em pé frente à janela. Como enrolava a cintura com o lençol branco cedido pela garota, as pernas cresciam compridas e saudáveis debaixo daquele saiote improvisado. Os cílios de Joe confundiam-se com os restos da noite mal dormida, dificultando o movimento das pálpebras, mas ela pôde ver que nascia de cima dos ombros o perfil de um jovem homem bem formado e de linhas delicadas, mas viris. Ela se levantou devagar, mostrando contemplação e ao mesmo tempo cuidado ao observá-lo em segredo. Suas asas haviam se amansado, encolhidas sobre a longa e alinhada coluna. Os cabelos caíam até a cintura, limpos e radiantes de acordo com as faixas de luz que invadiam sua face. Por um minuto, Joe se sentiu orgulhosa por seus cuidados e fascinada pela rápida recuperação do estranho. Ponderou se haveria maneira de conversar com ele.
Demorou alguns minutos e muitos questionamentos mortos no inconsciente até que o homem, agora não mais digno de ser comparado com uma criatura, se voltasse para a garota, que então parecia a frágil pré-adolescente raquítica que bem era. O olhar da indiferença tomou um tom de inquisição, posto que o corpo se tornava paralelo ao rosto esbranquiçado de Joe. A face desfigurada permanecia ali, rebaixada pelo formato delgado do suporte de abajur. Sentiu a garganta arranhar em secura. Só então Joe percebeu que há dias ela não pronunciava palavra alguma, já que qualquer expressão parecia desperdiçada quando dirigida ao outro.
Os olhos se encontraram e se fixaram por instantes incontáveis - provavelmente mais tensos e ternos para ela. Um filete de suor transbordou dos cabelos de Joe e desceu até o fim do maxilar, caindo em silêncio sobre o vestido negro. Por muito tempo, ela se fixara na parte ainda ferida do rosto dele, o suficientemente concentrada para que não notasse que ele se aproximava lentamente de si. Os braços cresceram até alcançar o chão mais atrás do corpo da garota, onde repousava seu celular. Joe baixou os olhos, entendendo aquilo como o início de um beijo, mas seu gesto ficou perdido no vácuo.
Conforme o aparelho se alojou entre seus dedos, o monitor do notebook deixado na escrivaninha piscou em branco, bem como a televisão se ligou sozinha da mesma maneira. As caixas de som espalhadas pelo quarto dispersaram um ruído agudo e perturbador o bastante para que as sobrancelhas de Joe se contorcessem e os dedos fossem aos ouvidos. As centenas de vozes invadiram o sistema de som do cômodo, misturando-se a outras falas em maior destaque. O visor do celular, do notebook e da TV passaram a transmitir a imagem de uma reunião de pessoas sobre o gramado artificial do Parque de Santa Yana, refúgio religioso situado no topo de um prédio.
A cena era silenciosa senão pelas inquietas e raivosas vozes que entravam em conflito, uma querendo sobrepor a outra. Em círculo, o grupo envolve um líder que carrega consigo o livro multiplicado nas mãos dos demais. Meditam, ora de mãos unidas ora de lábios pulsantes em um tipo de oração. E mais atrás, sentado feito uma criança descompromissada, observa a multidão o homem que agora, de olhos fechados, aguarda a contemplação de Joe dividida entre três telas.
A mão acusativa do líder apontou para o rapaz alado conforme uma onda de desespero e repulsa nasceu do rosto de dezenas de senhoras armadas por um número sete forjado em metal dourado. Pedras e livros voaram em direção do vôo levantado pelo garoto, enquanto esta cena era perturbada por trechos de um filme produzido pelos fiéis de Yana em que seus anjos eram crianças nuas que, decoradas por flores campestres, brincavam sobre as águas de um lago cristalino. Todas as telas se apagaram em negro.
O momento de reflexão e desconhecimento perante as imagens foi interrompido pelo som agudo de uma nova voz feminina que invadia o apartamento. As narinas do rapaz remexeram-se como as de um animal atiçado pela presa. Ele se levantou rápido, sendo impedido por Joe, que partiu em primeiro lugar de encontro com a mãe. Preenchida de adereços com o mesmo sete carregado pelas pessoas do vídeo, a mulher cantarolava uma canção da igreja. A espinha de Joe eriçou-se em horror com o pressentimento.
Do fim do corredor crescia a enorme sombra. Joe levou as mãos aos olhos. Ao fim do estribilho, crescia uma nota aguda. No fim da silhueta, sempre houve a criatura. Joe sentiu o rosto se umedecer de gosto férreo. Com o fim do canto, inicia o grito. Sobre os pés de Joe havia um saco de “setes” se esparramando pelo chão. Pelo fim dos horrores, cessavam os urros múltiplos conforme acalmava o vigor de membros decepados por dentes, espalhados pelo piso falso de madeira. Sob o nariz da filha, aquietava-se o corpo estilhaçado da mãe.
O choro aberto em escândalo foi interrompido pelo rasante do homem, que a tomou pelos braços e a acomodou no chão úmido de sangue. Permaneceu ali, enlaçado a ela, durante seis dias, esperando que seu corpo trêmulo e enrijecido pelo horror retomasse saúde, ainda que apodrecesse em torpor, fraqueza e desidratação. Mas em seu ouvido ele ressoava a canção de mil vozes que diziam amá-la nas mais diversas línguas, as quais ela jamais compreenderia.
Isso que é um final tenso.
ResponderExcluirPutz, Lídia gostei muito do conto todo. Achei muito interessante como você conseguiu misturar o conceito de "anjo" com a ambientação.
Bem é isso. Espero voltar em breve pra ler mais coisas suas.
Muito feliz que você tenha gostado :)
ResponderExcluirRealmente, se o conto era para uma coletânea composta, como você disse, "por contos românticos para adolescentes", ele iria ter um efeito devastador, seria o intermediário perfeito para Laranja Mecânica.
ResponderExcluirOtimo conto e bastante semelhante aos estilo dos mais antigos, este em que acho que você escreve melhor, questão de preferencia.
Imagino como ficou o conto publicado.