São cinco da manhã no relógio da catedral. Dos ponteiros crescem colunas de luz afixando as horas na superfície das nuvens. Um olha para o outro, enquanto ela ajeita os cabelos violetas abaixo da touca de lã preta. Bufam o vapor da friagem após finalizarem as escadarias do metrô à rua. Os três passam como silhuetas recobertas de roupa e mochila pela calçada decorada por focos de neve. As botas deixam rastros sobre a camada branca até atingirem o outro quarteirão, parando aos pés de um grosso prédio antigo e há muito tempo pintado em vinho – a cor escamando.
Como previsto, na tela de arame que forma o muro ao redor da moradia, um buraco já formado é escondido por um enorme latão de lixo feito de plástico azul. Os dois homens empurram o objeto, fazendo-o deslizar sobre suas rodinhas até finalmente revelar a entrada que os encaminha às escadas de emergência. De ferro, mas pintados em preto, os degraus crescem até o último andar, onde devem atingir. Sobem num silêncio composto por rangidos enferrujados e eventuais tosses ou pigarros. A respiração vai acelerando conforme o cansaço atinge e o fôlego se esvai. Ela pede para esperarem, mas eles a calam com um murmúrio querendo ser grito.
Com um último inspiro, o trio chega ao topo do prédio, onde já espera na porta de da cozinha um outro homem, também de touca, mas com roupas pretas e largas, parecendo pijama. Os pés descalços estão endurecidos pela espera no frio. De braços cruzados, ele afasta a porta com as costas. Cumprimentam-se com olhares de relance, meneios de cabeça, sendo que ela o aborda com um rápido toque de lábios – mas as vistas nem se encontram direito. Entram no apartamento, deixando que a porta esqueça um baque ecoando pelo quarteirão.
– Porra! – um dos recém-chegados comenta, tirando a touca da cabeça, de maneira a libertar os cabelos compridos e ruivos.
– Foi mal. – o dono da casa dá de ombros, também se desfazendo de touca. A cabeleira preta se remexe oleosa acima do rosto decorado por barba pouco crescida.
Tiram das costas as mochilas pesadas. Deixam sobre as gigantes almofadas encapadas por remendos. Como num parto, eles retiram com cuidado seus notebooks com vários gadgets já plugados, como tentáculos a se remexer.
– Já fiz a primeira remessa de café. A próxima não sou eu. – diz o moreno enquanto traz da cafeteira elétrica um jarro de vidro.
As canecas, em cima de uma pequena mesa central, são preenchidas uma a uma. O líquido fumega. A garota usa o tempo de inicialização do computador para ajeitar as cortinas, que mais são pedaços de pano escuro remendados às passadeiras anexadas acima das janelas. As luzes se limitam a uma lâmpada que desce à altura da cabeça deles, sozinha, por um fio cuspido de um buraco no teto pintado de branco – mas manchado de fumaça de cigarro e gordura. O restante são abajures espalhados pelo chão: algumas lava-luz, outros luminárias convencionais. A garota está encostada numa das paredes, que estão cheias de papéis colados, pôsteres e anotações feitas à caneta. Ela fuma um resto de cigarro esquecido aceso no cinzeiro. O blusão de lã emprestado do namorado é tão largo que cresce depois de suas unhas pretas e quadris.
– Maluco, isso vai dar merda... – o terceiro garoto, que até então não havia se pronunciado, diz por entre os dentes segurando um cabo enrolado.
– Vai nada, Noid. – responde o ruivo, que larga o computador num canto para poder tomar um pouco de café.
Ele grita alguma coisa irreconhecível quando queima a boca com a bebida. Aproveita o gole para conseguir ingerir um comprimido relaxante.
– Fica tranqüilo. O Snake já cuidou de todo um esquema de firewalls e neutralizadores de identificação. – ela explica, referindo-se ao namorado, que meneia a cabeça para reforçá-la.
– Hm. – Noid resmunga.
O silêncio dura alguns instantes, enquanto eles se acomodam em suas devidas almofadas. Tendo compartilhado um software de máscara de rede codificado por Snake, todos se mantêm conectados à rede abaixo de diversas camadas de IP mutáveis de acordo com o rastreamento do servidor. Com uma caneca na mão e a ponta do indicador no touchpad, eles sentem que a manhã, que invade o apartamento pelas bordas das cortinas, vai ser muito longa.
Primeiro eles lêem as notícias. Bem como já sabiam, mas teimavam em acreditar. Na noite passada, Lynx havia sido morta numa briga de clube, numa troca de tiros entre cafetões. O grupo ali reunido ria novamente, começando num sorriso discreto até se desfazerem em gargalhadas escandalosas. Logo elas se transformam em berros de ódio. Noid jogou o maço de cigarros contra a parede.
– Porra, Lynx! – ele sorri, ainda inconformado. Usa a mão para coçar os olhos esbugalhados e cheios de olheiras. Depois tira do bolso da calça uma cartela de comprimidos camuflados em embalagem de remédios. Toma três deles com café frio.
– Já era, Noid. É foda de acreditar, mas... Agora a gente tem que botar pra foder. – complementa o ruivo.
– Blaze, eu to puto. Não é possível que ela tenha morrido assim. Só pode ser hoax. – Noid ainda tem a face distorcida em um bom humor psicótico. Como se enlouquecido, ele aceita a desgraça como uma grande piada.
– E nego já tá publicando foto do corpo até. – Eve compartilha o link da imageboard com um thread preenchido de imagem-resposta com a figura de uma lince, como em homenagem à hacker. Ela levanta a mão à altura do nariz, conforme abre de cima de um dos anéis a tampa do compartimento onde reserva cocaína.
– Os rivetheads devem estar putos. – Snake morde a pele do polegar – Deviam estar loucos pra torturar a doida. E ela ainda morre numa cagada dessas. Tsc. – ele acaba rindo de verdade, realmente achando graça.
– Certeza... – Eve concorda, falhando a voz conforme o nariz coça e ela o remexe, sugando os últimos vestígios de droga.
Enquanto eles acertam os últimos detalhes no canal de conversação entre os demais representantes do grupo anônimo, Noid faz por si mesmo a programação de robôs independentes do planejamento da equipe. Megacorps Operation conta com um milhão de hackers ao redor do mundo: sejam eles programadores ou operários de empresas de notícias e de serviços, todos são uma engrenagem dentro da grande máquina demolidora de Sistema. Os alvos são megacorporações, grandes empresas financeiras, grupos de mídia, bancos, games em realidade virtual e demais setores da grande economia.
Enquanto os quatro ali se dividem entre entusiasmo, paixão e ira, o restante do mundo se une no ideal de anarquia e revolução através do ciberespaço. As mensagens, anunciadas em forma de JPEG por sites de hospedagem gratuita, rapidamente se multiplicam em redes sociais.
– Não estou entendendo porque a nossa tag não está em destaque. Tem alguma coisa de muito errado nessa merda. – Eve comenta, sem querer apagando o cigarro dentro da caneca de café quente.
– Esses putos tão censurando a gente. Porra! – Blaze responde, fazendo com que seus dedos movam ainda mais rapidamente sobre o teclado – Vou mandar uma porra de um bot floodar essa merda toda. Não vai ter um puto online que fique fora dessa sujeira toda.
– Como tá aí, Snake? – Eve pergunta.
– Calma, Eve. Tá indo. Devagar, mas tá indo. – a testa de Snake se retorce enquanto os cabelos pretos caem úmidos de suor. O aquecedor desregulado incomoda a sensação-ambiente.
Noid não diz nada demais. Só concorda, ri ou levanta as sobrancelhas. A atenção e a tensão dos três outros, completamente dedicadas aos processos abertos em seus computadores, não os permite a se preocupar com a omissão do amigo. De repente, Snake grita, chegando até a bater o joelho na mesa que serve de apoio para sua máquina.
– Aê! ShibuyaCred is unavailable! – ele ergue os braços, levantando-se para ir de encontro com Eve. Snake a beija, puxando-a para que se levante.
– Calma, Snake! – ela ri, mas não tira os olhos da tela – Já estou terminando. Só mais um pouquinho...
A tarde transcorre alheia ao apartamento. Escondidos na penumbra avermelhada das lava-luzes, três deles ainda estão em frente ao computador, lidando com informação bruta, forma reservada às empresas produtoras e proprietárias de conteúdo. Enquanto isso, Blaze se conecta via realidade virtual, da maneira convencional aos usuários, tendo apertado seu pulso esquerdo até duas esferas nascerem luminosas, em azul. Conectado, ele descreve as modificações no ambiente simulado, principalmente nos jogos que já não permitem mais login. Esferas acinzentadas, pelo amálgama de cores mal resolvidas, nascem como falhas na estética da rede.
– Se liga, Eve. – Blaze compartilha um link de um site de notícias, mas lê a nota em voz alta, já que Snake está fora do PC – Social games da Armageddon entram em colapso e contas são apagadas. Usuários sobrecarregam o site de reclamações e o domínio fica offline por falta de banda. Boa! Já conseguimos derrubar todos os sites de cartão de crédito, dois portais de notícia e os social games dessa porra. Anons win!
– Isso aí, Eve. Vamos comer alguma coisa na cozinha. – Snake remexe as mãos, convencendo a garota a deixar seu computador de lado e se levantar.
Os dois vão para o outro cômodo, deixando para trás o silêncio entre Blaze e Noid. O primeiro, que há alguns minutos havia fumado um baseado, olha para o segundo, por cima da tela do computador. Queria fazer piada, mas percebe que o amigo está pouco se fodendo para o casal. Aos poucos, Noid percebe que Blaze o observa, mas não se manifesta. Pelos vãos da porta da cozinha escapam gemidos e um grito de Eve. Um prato quebra entre os rangidos das pernas da mesa.
– Uau. – Blaze ri alto – Dá pra ser mais discreto aí, porra?
– À merda! – o grito de Snake é abafado pela distância e pela porta mal fechada.
O ruivo continua rindo, agora abertamente olhando para Noid, esperando compartilhar o deboche. Ele transpira anomalamente, sua testa franze ao ponto de desfigurá-lo. A fumaça de seu cigarro cresce pelo rosto, enroscando entre os cílios e as sobrancelhas. A cinza enorme dependurada à ponta do fumo não cai. Sua respiração parece mais difícil: torna-se um ronco animalesco, um grunhido desfeito num berro assustador. Blaze arregala os olhos verdes, não sabendo se olha para Noid ou para a tela do computador, onde uma janela em DOS vomita linhas de comando se atropelando. Noid utiliza todos os demais PCs, em rede, para fazer upload de alguma coisa que Blaze não conseguiu reconhecer. A velocidade com que os códigos se multiplicavam, perdidos em verde pela tela negra, não o permitiu entender o que acontecia.
O notebook é jogado para o lado, sobre o tapete queimado de cinzas de cigarro. Blaze se levanta com dificuldade, trançando as pernas finas conforme enxerga a mesma cena transparecendo pelas telas LCD dos outros notebooks. Snake e Eve voltam da cozinha enrolados numa toalha de mesa. Olham sem dizer nada, então enxergam Noid espumando pela boca e um conector saindo de sua nuca até o computador. De pernas abertas, as canelas convulsionam com o resto do corpo. Os olhos azuis de Noid se escondem no alto das órbitas, enquanto a cabeça pesa contrária à coluna, remexendo-se até cair para o lado. A tela do computador trinca com a queda do aparelho, deixando o notebook aberto, como um livro, as teclas voltadas para o chão.
– A conexão caiu. – Snake diz, mexendo no próprio computador – A quantidade de dados que Noid está fazendo upload fez com que o servidor bloqueasse a conexão.
Blaze corre em direção a Noid, retirando de sua cabeça o cabo que o conectava ao computador. Já não adianta mais mesmo. Tenta reanimá-lo, mas Noid ainda o convulsiona. Blaze o segura pelos braços, tentando contê-lo.
– Ele estava tentando recuperar o banco de vídeos e dados que a Lynx tinha disponibilizado. – Eve explica, analisando as linhas de comando na tela do computador de Snake – Quis fazer um espelho.
– É, ele disse. Vai dar merda. – o namorado responde, meio aleatoriamente, passando a mão da testa até a nuca, afastando os cabelos.
– Caralho, vistam uma roupa. A gente vai ter que dar o fora daqui. – Blaze grita, levantando Noid pelos braços.
Como num bombardeio, o barulho dos passos pelas escadarias de emergência preenchem o interior do apartamento, ecoando. O casal retorna à cozinha, onde deixaram as roupas, sendo surpreendidos por um chute contra a porta de emergência. A placa de metal cai no chão, ribombando enquanto Eve berra agudo. O cano da metralhadora negra reluz ao brilho do sol poente. Ela une as mãos, em posição de prece, enquanto Snake sorri rangendo os dentes. Os militares ergueram suas armas, mas o garoto levantou sua mão: projéteis contra um dedo do meio entortado por estalos.
Na sala, Blaze escuta os tiros. Com Noid ainda desacordado, ele tenta programar, em rede, a formatação de todos os computadores. Apesar do atalho no teclado, pronto para a ativação do software, o medo não o permite de ver se o comando foi efetivado. Sai correndo, aos tropeços, até o quarto de Snake. Salta sobre a cama, pisa no colchão, parando apoiado na janela sem cortina. O pescoço escapa para fora do vão: o chão a dezesseis metros. Os passos ecoam pelo apartamento. Eles se aproximam. Com um pouco de impulso, ele passa as pernas para fora, o quadril ajeitado no parapeito da janela.
Por detrás das armas, os homens pedem para que ele pare. Blaze ignora. Usa a sola da bota para dar impulso na parede exterior do prédio. O coturno arranca uma lasca de tinta velha. O corpo cai mais rápido, chega ao chão antes da tira de cor. O rosto se desfigura com o resto de carne espremida no concreto rançoso. Por alguns milésimos, o cérebro ainda funciona, os olhos captando a figura esguia estendida entre duas fendas na grade de arame. A mulher de pernas tortas e anoréxicas, os coturnos altos, a saia de couro e os cabelos azuis. Ali já não é mais Blaze, mas hardware quebrado com informação perdida. Ela vai embora, roendo as unhas pretas por entre os lábios amarelos.
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Esse conto foi escrito pra uma zine que nunca foi lançada, então publiquei aqui e foda-se. Foi escrita faz moh tempo, na época em que rolou o lance do Wikileaks e da Anon Ops. Então, taí a influência.
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